No meio da invasão francesa que começou nos anos 60 e durou até aos anos 80 (é certo que ainda hoje cerca de metade do mercado continua a ser dominado pela indústria franco belga mas a sua influência nos autores e peso no mercado tem sido menor) conseguiram afirmar-se alguns autores. Dentro de uma linha tradicionalista mas contemporânea destacamos: José Abrantes (1960), um dos poucos autores de cómics que se dedicada exclusivamente à infância e que comemorou em 2005 trinta anos de carreira; Luís Louro (1965), com um trabalho dedicado a um público mais juvenil explorando os cómics de aventuras e paródia às aventuras e Pedro Massano (1948), que trabalhou sobretudo a banda desenhada histórica ao estilo Glénat (editora onde tem publicada a banda desenhada Le deuil impossible com Patrick Lizé).
Um fenómeno mais recente é o de autores que tentam penetrar na poderosa indústria norte-americana de comics. Uma deslocação dos interesses tradicionais de uma geração que já não se sente influenciada pela escola franco belga. São os casos de Eliseu Gouveia (1971), Daniel Maia (1978) e Miguel Montenegro (1978) que procuram juntar-se ao luso descendente Joe Madureira (1974).
Sugerimos:
Diferr, Luís, pseud.
O lago iluminado / Luís Diferr, José Abrantes. - [Lisboa] : Baleiazul, 1997-1998. - 2 v. : il., banda desenhada. - (Dakar, o minossauro)
972-97247-0-9
972-97247-6-8
I - Abrantes, José, pseud.
Massano, Pedro, 1948-
A conquista de Lisboa / Pedro Massano. - 2 v. : il., banda desenhada.
1º v. - Coimbra : Foto-Jornal, 1997. - 972-663-010-X. - 2º v. - Lisboa : Booktree, [200-?]. - 972-8718-54-3
Louro, Luís, 1965-
Alice : na cidade das maravilhas. - argum. e des. Luís Louro. - Porto : Asa, 1995. - 64 p. : il., banda desenhada. - (Estórias de Lisboa ; 7)
972-41-1684-0
Gray, Justin
Cloudburst : dilúvio mortal. - Gray, [et al]. - Senhora da Hora : Devir, cop. 2005. - [72] p. : il., banda desenhada.
989-559-102-0
I - Palmiotti, Jimmy
II - Shy, Christopher
III - Gouveia, Eliseu, 1971-
Mas, como vimos, o proteccionismo do Estado Novo não foi suficiente. A compra de produtos estrangeiros mais baratos era vantajosa e inevitável. O mercado acabou por não conseguir estabelecer uma indústria. Assim, as condições de trabalho dos autores e os meios de edição foram-se reduzindo ao longo de décadas ao ponto de hoje a edição continuar a ser um problema irresolúvel. Contudo, apesar de todas as contrariedades não se pode dizer que não hajam obras com interesse ou autores de qualidade. Curiosamente com a abertura para o mundo, a partir dos anos 70, os autores portugueses vão surgindo por meio de álbuns, livros, revistas e fanzines... e vão aparecendo com obras sem espartilhos mercantis, livres e adultas. Infelizmente, como as edições geram mais despesas do que lucros, não conseguem criar uma estrutura de continuidade ou em crescendo. Um autor executa uma obra e provavelmente nunca fará mais nada, ou demorará cerca de 17 anos a lançar um segundo volume (já aconteceu). O que se passa é que a maior parte dos autores têm desenvolvido trabalhos durante a universidade ou no tempo livre do emprego. Alguns deles relacionados com ilustração, cinema de animação, artes plásticas e como um livro nunca paga o trabalho dispendido (se é que paga o próprio livro?) a maior parte dos autores acabou por desistir dos cómics após uma ou outra experiência.
Houve em Portugal uma revista ícone nos anos 70, para os autores nacionais. A Visão. Influenciada pela Pilote e por outras revistas francesas "adultas". Era, no entanto, um periódico demasiado luxuoso para um país pobre e demasiado vanguardista para um país atrasado. Um oásis impensável. Teve apenas 12 números e um curto tempo de vida (Abr. 75 / Maio 76).
Desta década destacamos dois autores: Victor Mesquita (1939) e Isabel Lobinho (1947), o primeiro influenciado pelo barroquismo de Druillet, a segunda pela Pop-art psicadélica e o erotismo. Ambos influenciados pelos europeus da altura. Como será óbvio num país marcado pela cultura francesa, a fantasia é um tema presente em ambos. Viviam-se as utopias.
Sugerimos:
Mesquita, Vítor, 1939-
Trilogia com Tejo ao fundo / argum. e des. Victor Mesquita. - Porto : Asa, 1995. - 70 p. : il., banda desenhada. - (Estórias de Lisboa ; 6)
972-41-1685-9
Lobinho, Isabel, 1947-
Mário e Isabel / Isabel Lobinho. - 32 p. : il., banda desenhada. In: Cadernos Moura BD. - Moura : [s.n.], 2002. - Nº 3
I - Leiria, Mário Henrique, 1923-1980
A continuação da experiência Visão, a tal revista vanguardista de autores portugueses de banda desenhada, ressurge no final dos anos 80 início dos anos 90 com o periódico Lx comics (1990/1991). Mais uma vez a experiência e o fracasso editorial repetiam-se e a nova revista teria uma duração de apenas quatro números.
Desta geração destacamos António Jorge Gonçalves (1964) que num estílo inicial semelhante a Hugo Pratt acabou por experimentar livremente novas abordagens das quais pomos em relevo a primeira novela gráfica portuguesa (A arte suprema, 1997). Andou desde o início dos anos 80 a fazer bd por fanzines e jornais dos quais algumas histórias foram recompiladas em álbum. Acabou por se dedicar mais tarde ao design gráfico e à ilustração. Outro nome desta geração, recentemente editado em Espanha, é Diniz Conefrey (1965). Usando um registo mais artístico, embora com algumas variações, este desenhador que por vezes nos faz lembrar Mattotti teve um percurso irregular por jornais e fanzines navegando mais pela ilustração, mas com algumas incursões de qualidade na banda desenhada. Filipe Abranches (1965) é outro titular desta equipa que debutou nos anos 80. Também começou pelos fanzines, mas cedo se percebeu que estávamos perante um desenhador de excelência que acabou por ser publicado nas mais vanguardistas editoras franco-belgas (L´Association, Amok e Freon). O seu trabalho de ilustração também atingiu os píncaros com fabulosas ilustrações para o jornal Le Monde. Por fim Nuno Saraiva (1969) é talvez o mais regular desta colheita. Também começou pelos fanzines nos anos 80, mas cedo iniciou uma longa carreira de autor de banda desenhada nos jornais portugueses. Semanalmente num registo satírico e humorístico as suas pranchas continuam a ser publicadas desde 1994 no jornal O Independente, embora com algumas interrupções. Os álbuns, que compilam esses cómics semanais também se vão sucedendo. Mas como é óbvio não é a venda dos livros que paga o seu trabalho. É o sucesso dos cómics no jornal.
Um pouco mais velhos que os autores do parágrafo anterior, destacamos separadamente dois autores que se caracterizaram pela capacidade de tratar temas urbanos contemporâneos, apesar de serem autores com estruturas narrativas e estéticas ainda tradicionais. Fernando Relvas (1954) com L123 e Cevadilha Speed, duas obras que tratam com algum realismo fenómenos como a delinquência juvenil, as drogas, as alemãs no Algarve (a Costa do Sol portuguesa). Relvas (que também se aventurou por temas históricos) acabou por criar uma obra carismática sobre as novas gerações nos anos 80. Arlindo Fagundes (1955) no seu álbum La Chavalita e o seu personagem Pitanga, barbeiro a domicílio (peluquero a domicílio) escreveu-nos sobre a prostituição e escravatura branca. Sobre o tráfico de mulheres portuguesas para bares de prostituição em Espanha, tema que na altura ninguém falava.
Esta abordagem urbana e suburbana continuou, uma década depois com Loverboy, histórias de geração dos anos 90, da ressaca grunge, pré-universitários, drogas e raves. Os autores são precisamente dessa geração dos anos 90 que durante essa década influenciados pelos alternativos norte-americanos e a "movida" das editoras independentes participaram num boom dos cómics portugueses. Desta fornada que também foi ajudada pela intensa actividade da Bedeteca de Lisboa e pelo Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto sobressaem: João Fazenda (1975), Pedro Brito (1979), Pedro Nora (1977), David Soares (1976) e Ana Cortesão (1970). Não nos vamos estender muito sobre estes autores até porque existe [Em linha] e (sobretudo!) em castelhano um artigo sobre a banda desenhada portuguesa nos anos 90 publicado originalmente em La Guía del cómic (2003).
Sugestões:
Silva, Nuno Artur, 1962-
Uma investigação de Filipe Seems / Nuno Artur Silva, António Jorge Gonçalves. - Porto : Asa, 2003. - 3 v. : il., banda desenhada.
972-41-1212-8 ( v. 1)
972-41-1534-8 ( v. 2)
972-41-3599-3 ( v. 3)
I - Gonçalves, António Jorge, 1964
Conefrey, Dinis, 1965-
Cochquixtia : el despertar / Dinis Conefrey. - Barcelona : Devir, 2003. - 62 p. : il., banda desenhada
84-95712-89-X
Marques, A. H. de Oliveira, 1933-
História de Lisboa / A. H. de Oliveira Marques, Filipe Abranches. - Lisboa : Assírio e Alvim ; Câmara Municipal, 1998-2000. - 2 v. : il. : banda desenhada
972-37-0492-7 ( v. 1 )
972-37-0566-4 ( v. 2 )
I - Abranches, Filipe, 1965-
Pinto, Júlio, 1949-2000
Filosofia de ponta / textos de Júlio Pinto ; des. de Nuno Saraiva. - Matosinhos : Contemporânea, [1996 - 199-?]. - 3 v. - il., banda desenhada
972-8305-25-7 ( v. 1)
972-8305-65-6 ( v. 2 )
972-8305-66-4 ( v. 3 )
I - Saraiva, Nuno, 1969
Fagundes, Arlindo, 1955-
A rapariga do poço da morte : uma aventura de Pitanga, barbeiro a domicílio / Arlindo Fagundes. - Lisboa : Caminho, cop. 2003. - 53, [2] p. : il., banda desenhada.
972-21-1539-1
Fagundes, Arlindo, 1955-
La chavalita : uma aventura de Pitanga, barbeiro a domicílio / texto e desenhos de Arlindo Fagundes. - Lisboa : Caminho, 1985. - 58 p. : il., banda desenhada.
972-21-1539-1
Relvas, Fernando, 1954-
L123 seguido de Cevadilha Speed / Relvas. - Senhora da Hora : Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, 1998. - [97], 46 p. : il., banda desenhada.
972-97469-2-3
Farrajota, Marcos, 1973-
Loverboy / Marte, João Fazenda. - Lisboa : Polvo, 1998-2001. - 3 v. : il. : banda desenhada
972-8440-02-2 (v. 1)
972-8440-08-1 (v. 2)
972-8440-26-X (v. 3)
I - Fazenda, João, 1979-
II - Marte, pseud. USE Farrajota, Marcos, 1973
Soares, David, 1976-
Mr. Burroughs / escrito por David Soares ; il. por Pedro Nora. - Queluz : Círculo de Abuso, D.L. 2000. - 52 p. : il., banda desenhada
972-98524-1-3
I - Nora, Pedro, 1977
Brito, Pedro, 1975-
Tu és a mulher da minha vida, ela é a mulher dos meus sonhos / Pedro Brito ; João Fazenda. - Lisboa : Polvo, 2000. - [50] p. : il. : banda desenhada
972-8440-
I - Fazenda, João, 1979-
Brito, Pedro, 1975-
Pano Cru / Pedro Brito. - Lisboa : Polvo, 2001. - [62] p. : il. : banda desenhada
972-8440-44-8
Cortesão, Ana
A minha vida é um esgoto / Ana Cortesão. - [Lisboa] : Baleiazul, cop. 1999. - 56 p. : il., banda desenhada. - (Bedeteca ; 6)
972-8515-08-1
<< Leer parte I Leer parte III >>
Marcos Farrajota y Adalberto Barreto