Infelizmente, o boom que ocorreu entre 1997 e 2001 não durou muito tempo, nem desenvolveu o mercado, tendo havido uma óbvia recessão de edições e até de obras para publicar. A crise atingiu a própria edição de obras estrangeiras. Best sellers em França e nos Estados Unidos que aqui têm dificuldade em vender, razão pela qual das oito ou nove editoras de banda desenhada que operavam no mercado há cerca de quatro anos apenas tenham sobrevivido duas ou três (ASA, Devir e Vitamina BD).
No meio desta tragédia os autores portugueses foram desgraçadamente os primeiros a afundar-se. Felizmente não aconteceu com todos e alguns têm conseguido viver (ou sobreviver?) através dos cómics, casos de Nuno Saraiva (porque trabalha com imprensa), José Carlos Fernandes (JCF) e Miguel Rocha que através das bolsas (becas) e do seu estilo de vida zen (uma brincadeira, admitimos, pois vivem no interior e um deles não tem telefone celular-o que é um choque para nós citadinos!) conseguem equilibrar as contas, sendo também auxiliados pela venda de livros e trabalhos institucionais (de ilustração e cómics). Têm por trás uma editora com uma postura profissional e bem implantada no mercado português, brasileiro e espanhol, a Devir.
Entretanto a notícia já não é em primeira mão. Sabe-se que JCF se encontra num novo epicentro de criação e edição que poderá dar frutos no futuro. Num país onde tem havido mais desenhadores que guionistas, JCF tem escrito mais argumentos do que tem conseguido desenhar. Face a este problema foi proposto que outros autores de cómics desenhassem essas histórias. O projecto a lançar pela Devir, chama-se (em bom português) Black Box Stories e Miguel Rocha é um dos desenhadores que participam. E já se sabe, também, que há desenhadores desconhecidos do grande público que irão aparecer neste projecto como a Susa Monteiro (recentemente editada na revista galega Barsowia) ou Luís Henriques. A seguir…
Sugerimos:
Rocha, Miguel, 1968-
La vida en una cuchara : remolacha / Miguel Rocha. - Barcelona : Devir, cop. 2003. - 118 p. : il. : banda desenhada
84-96262-11-1
Fernandes, José Carlos, 1964-
El quiosco dela utopia / José Carlos Fernandes. - Barcelona : Devir, cop. 2002. - 53 p. : il. : banda desenhada. - (La peor banda del mundo ; 1)
84-95712-52-0
Fernandes, José Carlos, 1964-
Museu nacional de lo accesorio e irrelevante / José Carlos Fernandes. - Barcelona : Devir, cop. 2003. - 63 p. : il. : banda desenhada. - (La peor banda del mundo ; 2)
84-95712-78-4
Fernandes, José Carlos, 1964-
Las ruinas de Babel / José Carlos Fernandes. - Barcelona : Devir, cop. 2003. - 55 p. : il. : banda desenhada. - (La peor banda del mundo ; 3)
84-96262-14-6
Fernandes, José Carlos, 1964-
La gran enciclopedia del conocimiento obsoleto / José Carlos Fernandes. - Barcelona : Devir, cop. 2004. - 53 p. : il. : banda desenhada. - (La peor banda del mundo ; 4)
84-96262-17-0
Num mercado inexistente os fanzines, mais ou menos desde o ano 1972 com o Argon (o primeiro fanzine português), têm sido a grande válvula de produtividade dos autores portugueses. Não querendo fazer aqui a história dos fanzines e da produção independente em Portugal, não podíamos também deixar em branco o trabalho de alguns movimentos nestes últimos anos, até porque foram uma escola de aprendizagem e um ponto de encontro para os autores e editoras nos anos 90. Como referido no artigo da La Guia del Cómic, "a movida" deu-se com pequenas casas editoriais que abanaram um pouco a "cena", algumas dessas editoras eram mesmo um exemplo Darwinista de evolução da espécies. De fanzines transformaram-se lentamente em livros e periódicos quase luxuosos como os casos da editora Polvo, Associação Chili Com Carne, Círculo de Abuso, MMMNNNRRRG e o Colectivo alíngua.
O ritmo, no entanto, abrandou desde 2003. Alguns dos projectos editoriais deixaram de existir e outros tem continuado timidamente como a Polvo que em tempos publicou muitos livros de autores alternativos portugueses e estrangeiros-como o "infame" Alvarez Rabo o qual foi motivo de escândalo em Portugal. Primeiro a nível local (numa cidade do interior, Viseu) e mais tarde a nível nacional (em jornais e na Assembleia da República), com o livro As mulheres não gostam de foder.
Contudo gostaríamos de sugerir pelo menos três projectos que se impõem por divulgarem as novas tendências da banda desenhada portuguesa e internacional. O primeiro será o periódico (com uma periodicidade muito irregular) Quadrado, actualmente na 3ª série que começou a ser publicado pela Bedeteca de Lisboa desde 2000. Mais do que um fanzine (porque o foi no inicio) é uma revista que tem dado a conhecer aos portugueses os trabalhos mais vanguardistas à escala internacional e uma oportunidade de publicação para os novos talentos lusitanos. O Satélite Internacional do Colectivo alíngua (título do zine predecessor ao Satélite Internacional) é uma produção independente com características idênticas à Quadrado mas mais livre na capacidade de se reinventar número após número em conceitos ou formatos. O último número foi um especial composto exclusivamente de textos sobre imagem e cómics! O colectivo é na realidade formado pela parelha Pedro Nora e Isabel Carvalho. E por fim, a Associação Chili Com Carne que tem desenvolvido projectos vários como a antologia internacional de bd e ilustração Mutate & Survive (2001) que publicou cerca de 70 autores de 16 países. De Espanha participou o Luis Durán e da Argentina, Angel Mosquito e Diego Páres, embora 50% dos trabalhos pertençam a portugueses. Um outro projecto desta associação é o Mesinha de Cabeceira que começou por ser um zine em 1992 e tem sido um projecto mutante (de formatos sobretudo) ao longo dos tempos. Ao que parece nos últimos números estabilizou-se como uma revista de autores underground portugueses e estrangeiros: Pepedelrey, o polémico norte-americano Mike Diana, Joana Figueiredo, André Lemos, Dice Industries (Alemanha), João Maio Pinto, João Chambel, Francisco Sousa Lobo entre outros que se irão destacar certamente no futuro.
Sugerimos:
Frente Fanzinista Internacional
Mutate & survive. - Cascais : Associação Chili com Carne, D.L. 2001. - 200 p. : il., banda desenhada. - (CCC ; 2)
972-98177-3-1
Colectivo alíngua
Stad. - Senhora da Hora : Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, D.L. 2001. - 47 p. : il., banda desenhada.
972-8716-01-X
Por último se estiverem interessados em continuar atentos à realidade portuguesa sugerimos que visitem regularmente o site da Bedeteca de Lisboa sobretudo a Bedeteca Ideal, Recortes e Destaques e, o BD Jornal (ISSN 1636-2327), o nosso periódico mensal publicado pela Ulmeiro que já vai no número 11. Reparem que num país pequeno que edita tão poucos cómics a existência de um periódico mensal nos quiosques, três bedetecas e três salões internacionais (Lisboa, Amadora e Beja) dedicados à banda desenhada é absolutamente fantástico. É caso para dizer: "Estes portugueses são loucos!"
Bedeteca de Beja, Casa da Cultura. Rua Luís de Camões, 7800 Beja.
Bedeteca de Lisboa, Palácio do Contador Mor, Rua Cidade do Lobito, 1800-088 Olivais, Lisboa.
Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, Av. do Brasil 52, Falagueira, 2700-134 Amadora.
BD Jornal, Jorge Machado-Dias, Apartado 110, 2646-901 Alcabideche.
Livraria "Livros Portugueses", Emílio Lebon Limeres, Rua Castanheiros, 3 (Pelámios), 15705 - Santiago de Compostela.
Telf: 981 554 961; Fax: 981 554 960
Deus, António Dias de. Os comics em Portugal: uma história da banda desenhada. Lisboa: Cotovia, 1997. ISBN: 972-8423-04-7.
Cotrim, João Paulo. BD portuguesa: anos 90: guia breve de tendências, autores e temas. Lisboa: IPLB, 2001. ISBN: 972-8436-18-1.
Boléo, João Paiva; Pinheiro, Carlos Bandeiras. Das conferências do casino à filosofia de ponta: percurso histórico da banda desenhada portuguesa. Lisboa: Bedeteca, 2000. ISBN: 972-8487-28-2.
Sá, Leonardo de; Deus, António Dias de. Dicionário dos autores de banda desenhada e cartoon em Portugal. Costa da Caparica: Época de Ouro, 1999. ISBN: 972-9839-0-6.
Lisboa. Câmara Municipal - Hoje a BD: colóquios: 1996-1999. Lisboa: Câara Municipal, 2001. ISBN: 972-8487-32-0.
Marcos Farrajota y Adalberto Barreto